Sobrou
Dinheiro entre pessoas

Dividir despesas e emprestar dinheiro entre pessoas: o que combinar e o que a lei diz

Casal, amigos ou família: como combinar a divisão das contas, o que registrar num empréstimo, o que o Código Civil diz sobre prova e prazo e por que o Pix enviado por engano não tem o mesmo caminho do golpe.

Publicado em 29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura · por Equipe Sobrou

Balança de papel recortado em equilíbrio, com uma pilha alta de moedas num prato e uma pilha baixa mais uma moeda verde-limão no outro, entre folhagens verdes

O dinheiro divide mais amizades e casais do que a falta dele. Quase nunca é pela quantia: é por não ter ficado claro quanto era, quando voltava ou quem pagaria o quê.

Este guia junta três coisas: como combinar a divisão das contas, como registrar um empréstimo para não perder a clareza (e a relação) e o que a lei brasileira e o Banco Central dizem sobre prova, prazo e Pix. As informações são gerais e não substituem um advogado.

Dividir as contas sem brigar

Não existe modelo oficial

Procuramos orientação oficial sobre dividir despesas "meio a meio" ou "proporcional à renda" e não encontramos. O Caderno de Educação Financeira do Banco Central não compara esses modelos. O que ele diz é outra coisa, e mais útil: a participação de cada pessoa é imprescindível para a gestão financeira da família, e as pessoas têm comportamentos financeiros diferentes. Há duas formas de lidar com isso, impor limites ou buscar limites, e a segunda, que envolve todos, costuma gerar melhores resultados [6].

Em outras palavras: o melhor modelo é o que os dois decidiram juntos.

Os arranjos mais comuns

Entre as práticas que se vê por aí, e que descrevemos como práticas, não como regras:

Arranjo Como funciona Quando costuma fazer sentido
Meio a meio Cada um paga metade de cada conta Rendas parecidas
Proporcional à renda Cada um paga o mesmo percentual da própria renda Rendas diferentes
Conta comum Cada um transfere um valor para uma conta das despesas da casa; o resto é individual Quando se quer simplicidade e autonomia

Depois de escolher

Emprestar dinheiro: o que registrar

O Código Civil define o mútuo como o empréstimo de coisas fungíveis [1], categoria em que o dinheiro se encaixa. Na prática, é o "me empresta?" entre pessoas.

Contrato é obrigatório?

Não para o empréstimo existir. O instrumento particular, feito e assinado, prova as obrigações convencionais de qualquer valor, e a prova por testemunhas é admitida de forma subsidiária [1]. Mas "a lei admite" não é "vai ser fácil provar". Um papel com o valor, a data combinada para a devolução e a assinatura de quem recebeu resolve a maior parte das discussões que viriam depois.

Registre, no mínimo:

  1. Quanto foi emprestado e quando.
  2. Se há juros ou não. A lei presume juros quando o empréstimo tem fins econômicos [1]. Entre amigos, diga com clareza que não há.
  3. A data de devolução ou as parcelas.
  4. Como será feita a devolução.

E se não houver data de devolução?

A lei fixa um prazo mínimo de trinta dias para o mútuo de dinheiro quando nada foi combinado [1]. Não ter data é, na prática, a receita para o assunto se arrastar. Combine, e escreva.

Ao quitar, peça recibo

Quem paga tem direito à quitação regular e pode reter o pagamento enquanto ela não lhe for dada. A quitação pode ser dada por instrumento particular, com o valor, o nome do devedor, o tempo e o lugar do pagamento e a assinatura do credor [1]. Guarde a mensagem ou o recibo de quitação.

Prazo para cobrar: não existe um número único

A lei prevê prescrição de dez anos quando não há prazo menor, e de cinco anos para a cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular [1]. Os tribunais já aplicaram prazos diferentes ao empréstimo entre pessoas:

O que vale para o seu caso depende de detalhes. Para uma situação concreta, procure um advogado ou a Defensoria Pública. Para o dia a dia, a lição é mais simples: quanto mais claro o combinado, menos você depende de interpretação.

Pix: o comprovante é prova de quê?

O Banco Central descreve o Pix como uma transferência instantânea, a qualquer hora e de graça [6]. O comprovante mostra que o dinheiro foi enviado. Ele não diz, sozinho, que foi um empréstimo, nem em que condições. Por isso, ao emprestar por Pix, deixe o combinado registrado em mensagem: valor, finalidade e prazo. Se isso basta como prova numa eventual cobrança, é uma avaliação que cabe a um advogado, e não afirmamos que sim.

Enviei por engano

O guia do Banco Central sobre o MED, o mecanismo especial de devolução do Pix, diz que as transações enviadas pelo próprio usuário por engano a outro recebedor não se enquadram nos casos passíveis de MED. O mecanismo é voltado a fraude e golpe. A recomendação é conferir o nome do destinatário antes de confirmar [7]. Se o erro foi seu, o caminho é combinar a devolução com quem recebeu e guardar a conversa.

Imposto de renda

Quem é obrigado a declarar informa o empréstimo de pessoa física em "Dívidas e Ônus", com o valor devido em 31 de dezembro, conforme os comprovantes. Dívidas de valor igual ou inferior a R$ 5.000,00 em 31/12 não são incluídas [5]. Em caso de dúvida, procure um contador.

Erros comuns

Um combinado em 5 minutos

Antes do próximo empréstimo ou da próxima divisão de conta, mande esta mensagem e peça um "ok": "Combinado: eu te empresto R$ ___ hoje, sem juros, e você devolve em ___ de ___ pelo Pix. Confirma?". Não substitui um contrato, mas põe o combinado no papel.

No Sobrou, quem deve quanto a quem aparece num lugar só, separado do seu saldo, que não muda por causa disso. Entre na lista de espera logo abaixo para ser avisado quando abrirmos.

Este texto é informativo e geral. Não é parecer jurídico.

Perguntas frequentes

Como dividir as contas do casal: meio a meio ou proporcional à renda?

Não há regra oficial. O Banco Central não trata dos dois modelos, mas diz que a participação de cada pessoa é imprescindível na gestão financeira da família e que decidir os limites em conjunto, em vez de impô-los, costuma gerar melhores resultados. Escolha o modelo que os dois consideram justo, escreva o combinado e revise quando a renda de alguém mudar.

Empréstimo para amigo ou familiar precisa de contrato?

A lei não exige contrato escrito para o empréstimo existir, e a prova pode ser feita também por outros meios. Mas um documento assinado facilita muito provar a dívida, o valor e o prazo combinados. Se a quantia é relevante para você, registre por escrito.

Em quanto tempo prescreve uma dívida de empréstimo sem contrato?

Depende do caso. Em decisões de 2017 e 2022, o STJ aplicou dez anos a empréstimos verbais. Em decisão de 2026, aplicou cinco anos, contados 30 dias após o contrato, a um empréstimo de dinheiro sem data de devolução. Para uma situação concreta, procure um advogado ou a Defensoria Pública.

O Pix enviado por engano pode ser devolvido pelo banco?

O guia do Banco Central sobre devolução no Pix diz que as transações enviadas pelo próprio usuário por engano a outro recebedor não se enquadram nos casos do MED, o mecanismo especial de devolução, que é voltado a fraudes e golpes. Nesse caso, a solução é combinar a devolução com quem recebeu e guardar a conversa.

Preciso declarar no imposto de renda um empréstimo entre pessoas?

Quem é obrigado a declarar informa o empréstimo de pessoa física em Dívidas e Ônus, com o valor devido em 31 de dezembro. Dívidas de valor igual ou inferior a R$ 5.000,00 em 31/12 não precisam ser incluídas. Em caso de dúvida, procure um contador.

Fontes

  1. Presidência da República, Planalto. Código Civil, Lei nº 10.406/2002 (texto compilado). Consultado em 29 de outubro de 2026.
  2. Superior Tribunal de Justiça. Prazo prescricional em contrato de mútuo firmado verbalmente é de dez anos. 24/05/2017. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  3. Superior Tribunal de Justiça. Ação relacionada a obrigação sem prazo em contrato verbal prescreve em dez anos. 27/05/2022. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  4. Superior Tribunal de Justiça. No empréstimo de dinheiro sem data de devolução, prescrição começa a correr 30 dias após o contrato. 07/10/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  5. Receita Federal. Dívidas e Ônus Reais (Meu Imposto de Renda). Atualizado em 26/05/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  6. Banco Central do Brasil. Caderno de Educação Financeira: Conteúdo Básico, versão 2026. 2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  7. Banco Central do Brasil. Guia de implementação dos procedimentos de devolução no Pix, com ênfase no MED (v. 4.3). Arquivo de 29/07/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
  8. Monitor Mercantil (imprensa; fonte secundária). Quatro em cada 10 brasileiros casados brigam com parceiro por causa de dinheiro (pesquisa SPC Brasil e CNDL). 22/02/2017. Consultado em 29 de outubro de 2026.

Conteúdo informativo e geral. Não substitui orientação de contador, advogado ou consultor financeiro certificado. Como escrevemos e corrigimos.

Leia também