Dividir despesas e emprestar dinheiro entre pessoas: o que combinar e o que a lei diz
Casal, amigos ou família: como combinar a divisão das contas, o que registrar num empréstimo, o que o Código Civil diz sobre prova e prazo e por que o Pix enviado por engano não tem o mesmo caminho do golpe.

O dinheiro divide mais amizades e casais do que a falta dele. Quase nunca é pela quantia: é por não ter ficado claro quanto era, quando voltava ou quem pagaria o quê.
Este guia junta três coisas: como combinar a divisão das contas, como registrar um empréstimo para não perder a clareza (e a relação) e o que a lei brasileira e o Banco Central dizem sobre prova, prazo e Pix. As informações são gerais e não substituem um advogado.
Dividir as contas sem brigar
Não existe modelo oficial
Procuramos orientação oficial sobre dividir despesas "meio a meio" ou "proporcional à renda" e não encontramos. O Caderno de Educação Financeira do Banco Central não compara esses modelos. O que ele diz é outra coisa, e mais útil: a participação de cada pessoa é imprescindível para a gestão financeira da família, e as pessoas têm comportamentos financeiros diferentes. Há duas formas de lidar com isso, impor limites ou buscar limites, e a segunda, que envolve todos, costuma gerar melhores resultados [6].
Em outras palavras: o melhor modelo é o que os dois decidiram juntos.
Os arranjos mais comuns
Entre as práticas que se vê por aí, e que descrevemos como práticas, não como regras:
| Arranjo | Como funciona | Quando costuma fazer sentido |
|---|---|---|
| Meio a meio | Cada um paga metade de cada conta | Rendas parecidas |
| Proporcional à renda | Cada um paga o mesmo percentual da própria renda | Rendas diferentes |
| Conta comum | Cada um transfere um valor para uma conta das despesas da casa; o resto é individual | Quando se quer simplicidade e autonomia |
Depois de escolher
- Escreva o combinado, mesmo que em uma mensagem. Quem pagou o quê e como se acerta.
- Defina uma data para acertar as contas.
- Revisem quando a renda de um dos dois mudar.
- Não escondam gastos. Uma pesquisa do SPC Brasil e da CNDL de 2017, reportada pela imprensa e com 606 entrevistados nas capitais, indicou que 40% dos casados ou em união não contavam ao parceiro todas as compras e 39% brigavam por dinheiro [8]. É uma pesquisa antiga e relatada por veículo de imprensa, por isso a citamos com cautela.
Emprestar dinheiro: o que registrar
O Código Civil define o mútuo como o empréstimo de coisas fungíveis [1], categoria em que o dinheiro se encaixa. Na prática, é o "me empresta?" entre pessoas.
Contrato é obrigatório?
Não para o empréstimo existir. O instrumento particular, feito e assinado, prova as obrigações convencionais de qualquer valor, e a prova por testemunhas é admitida de forma subsidiária [1]. Mas "a lei admite" não é "vai ser fácil provar". Um papel com o valor, a data combinada para a devolução e a assinatura de quem recebeu resolve a maior parte das discussões que viriam depois.
Registre, no mínimo:
- Quanto foi emprestado e quando.
- Se há juros ou não. A lei presume juros quando o empréstimo tem fins econômicos [1]. Entre amigos, diga com clareza que não há.
- A data de devolução ou as parcelas.
- Como será feita a devolução.
E se não houver data de devolução?
A lei fixa um prazo mínimo de trinta dias para o mútuo de dinheiro quando nada foi combinado [1]. Não ter data é, na prática, a receita para o assunto se arrastar. Combine, e escreva.
Ao quitar, peça recibo
Quem paga tem direito à quitação regular e pode reter o pagamento enquanto ela não lhe for dada. A quitação pode ser dada por instrumento particular, com o valor, o nome do devedor, o tempo e o lugar do pagamento e a assinatura do credor [1]. Guarde a mensagem ou o recibo de quitação.
Prazo para cobrar: não existe um número único
A lei prevê prescrição de dez anos quando não há prazo menor, e de cinco anos para a cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular [1]. Os tribunais já aplicaram prazos diferentes ao empréstimo entre pessoas:
- 2017 e 2022: o STJ entendeu que o mútuo verbal prescreve em dez anos [2] [3].
- Outubro de 2026: em um empréstimo de dinheiro sem data de devolução, o STJ decidiu que o prazo de cinco anos para a cobrança judicial começa a correr 30 dias após o contrato [4]. A notícia não informa se o contrato era escrito, só que houve assinatura.
O que vale para o seu caso depende de detalhes. Para uma situação concreta, procure um advogado ou a Defensoria Pública. Para o dia a dia, a lição é mais simples: quanto mais claro o combinado, menos você depende de interpretação.
Pix: o comprovante é prova de quê?
O Banco Central descreve o Pix como uma transferência instantânea, a qualquer hora e de graça [6]. O comprovante mostra que o dinheiro foi enviado. Ele não diz, sozinho, que foi um empréstimo, nem em que condições. Por isso, ao emprestar por Pix, deixe o combinado registrado em mensagem: valor, finalidade e prazo. Se isso basta como prova numa eventual cobrança, é uma avaliação que cabe a um advogado, e não afirmamos que sim.
Enviei por engano
O guia do Banco Central sobre o MED, o mecanismo especial de devolução do Pix, diz que as transações enviadas pelo próprio usuário por engano a outro recebedor não se enquadram nos casos passíveis de MED. O mecanismo é voltado a fraude e golpe. A recomendação é conferir o nome do destinatário antes de confirmar [7]. Se o erro foi seu, o caminho é combinar a devolução com quem recebeu e guardar a conversa.
Imposto de renda
Quem é obrigado a declarar informa o empréstimo de pessoa física em "Dívidas e Ônus", com o valor devido em 31 de dezembro, conforme os comprovantes. Dívidas de valor igual ou inferior a R$ 5.000,00 em 31/12 não são incluídas [5]. Em caso de dúvida, procure um contador.
Erros comuns
- Achar que sem contrato a dívida não existe. A lei admite outras provas, mas elas são mais difíceis [1].
- Deixar o empréstimo sem data e sem registro.
- Confiar só no comprovante de Pix.
- Não pedir recibo ao quitar [1].
- Esperar que o banco desfaça um Pix enviado por engano [7].
- Impor a divisão em vez de combiná-la [6].
Um combinado em 5 minutos
Antes do próximo empréstimo ou da próxima divisão de conta, mande esta mensagem e peça um "ok": "Combinado: eu te empresto R$ ___ hoje, sem juros, e você devolve em ___ de ___ pelo Pix. Confirma?". Não substitui um contrato, mas põe o combinado no papel.
No Sobrou, quem deve quanto a quem aparece num lugar só, separado do seu saldo, que não muda por causa disso. Entre na lista de espera logo abaixo para ser avisado quando abrirmos.
Este texto é informativo e geral. Não é parecer jurídico.
Perguntas frequentes
Como dividir as contas do casal: meio a meio ou proporcional à renda?
Não há regra oficial. O Banco Central não trata dos dois modelos, mas diz que a participação de cada pessoa é imprescindível na gestão financeira da família e que decidir os limites em conjunto, em vez de impô-los, costuma gerar melhores resultados. Escolha o modelo que os dois consideram justo, escreva o combinado e revise quando a renda de alguém mudar.
Empréstimo para amigo ou familiar precisa de contrato?
A lei não exige contrato escrito para o empréstimo existir, e a prova pode ser feita também por outros meios. Mas um documento assinado facilita muito provar a dívida, o valor e o prazo combinados. Se a quantia é relevante para você, registre por escrito.
Em quanto tempo prescreve uma dívida de empréstimo sem contrato?
Depende do caso. Em decisões de 2017 e 2022, o STJ aplicou dez anos a empréstimos verbais. Em decisão de 2026, aplicou cinco anos, contados 30 dias após o contrato, a um empréstimo de dinheiro sem data de devolução. Para uma situação concreta, procure um advogado ou a Defensoria Pública.
O Pix enviado por engano pode ser devolvido pelo banco?
O guia do Banco Central sobre devolução no Pix diz que as transações enviadas pelo próprio usuário por engano a outro recebedor não se enquadram nos casos do MED, o mecanismo especial de devolução, que é voltado a fraudes e golpes. Nesse caso, a solução é combinar a devolução com quem recebeu e guardar a conversa.
Preciso declarar no imposto de renda um empréstimo entre pessoas?
Quem é obrigado a declarar informa o empréstimo de pessoa física em Dívidas e Ônus, com o valor devido em 31 de dezembro. Dívidas de valor igual ou inferior a R$ 5.000,00 em 31/12 não precisam ser incluídas. Em caso de dúvida, procure um contador.
Fontes
- Presidência da República, Planalto. Código Civil, Lei nº 10.406/2002 (texto compilado). Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Superior Tribunal de Justiça. Prazo prescricional em contrato de mútuo firmado verbalmente é de dez anos. 24/05/2017. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Superior Tribunal de Justiça. Ação relacionada a obrigação sem prazo em contrato verbal prescreve em dez anos. 27/05/2022. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Superior Tribunal de Justiça. No empréstimo de dinheiro sem data de devolução, prescrição começa a correr 30 dias após o contrato. 07/10/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Receita Federal. Dívidas e Ônus Reais (Meu Imposto de Renda). Atualizado em 26/05/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Banco Central do Brasil. Caderno de Educação Financeira: Conteúdo Básico, versão 2026. 2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Banco Central do Brasil. Guia de implementação dos procedimentos de devolução no Pix, com ênfase no MED (v. 4.3). Arquivo de 29/07/2026. Consultado em 29 de outubro de 2026.
- Monitor Mercantil (imprensa; fonte secundária). Quatro em cada 10 brasileiros casados brigam com parceiro por causa de dinheiro (pesquisa SPC Brasil e CNDL). 22/02/2017. Consultado em 29 de outubro de 2026.
Conteúdo informativo e geral. Não substitui orientação de contador, advogado ou consultor financeiro certificado. Como escrevemos e corrigimos.